O SEMPRE E O DE VEZ EM QUANDO




Ed René Kivitz


Outro dia alguém pinçou uma de minhas afirmações para afirmar que eu não acredito em milagres. A afirmação que fiz foi que Deus deseja fazer algo em nós, e não necessariamente por nós. De fato, representa muito do meu pensamento: a principal obra de Deus no humano é a conformação do humano à imagem de seu Filho Jesus, que Paulo, apóstolo, chama de “primogênito entre muitos irmãos”. Mais do que fazer coisas boas para o ser humano, Deus está comprometido em transformar o ser humano, ainda que isso custe deixar ou permitir que coisas ruins aconteçam a este ser humano em processo de transformação. Deus não atua no ramo de “conforto para os fiéis”. Deus atua no ramo de transformação do humano à imagem de Jesus Cristo.

Daí a extrapolar que eu não acredito em milagres é um pulinho. Confundir a ênfase da minha teologia – “Deus faz em nós, e não necessariamente por nós”, com “Deus nunca faz nada por nós”, é até compreensível.

Na verdade, o que pretendo dizer é melhor compreendido quando se dá atenção ao “não necessariamente”: Deus deseja fazer algo em nós, e não necessariamente por nós. Sublinhe o “não necessariamente”. Isso significa que Deus pode fazer e pode não fazer, e que o fazer ou deixar de fazer é imponderável, afetado por muitas variáveis que extrapolam o nosso controle e nosso entendimento. O que acredito, portanto, é que Deus sempre deseja fazer algo em nós, mesmo quando não faz algo por nós. Deus está sempre agindo para nossa transformação, mesmo quando não atua em nossas circunstâncias.

Por esta razão, minha conclusão é óbvia e simples: não devemos pautar nosso relacionamento com Deus na expectativa de que Ele faça algo por nós, mas na certeza de que Ele deseja fazer algo em nós. Quando Ele faz algo por nós, amém, quando não faz, amém também. O que não podemos permitir é que a expectativa de que Ele faça algo por nós nos deixe cegos ou imobilizados para o que Ele quer fazer em nós.

A maioria dos cristãos baseia seu relacionamento com Deus na dimensão “por nós”: o Deus de milagres, o Deus de poder. Alguns poucos baseiam seu relacionamento com Deus no “em nós”: o Deus de amor que nos constrange a viver para Ele e não para nós mesmos, onde viver para Ele implica sempre morrer para si mesmo, tomar a cruz e meter o pé na estrada. O milagre é problema (ou solução) de Deus. A fidelidade é problema meu. Atuar em minhas circunstâncias é o imponderável do mistério de Deus. Atuar em mim é o essencial do propósito de Deus. Você escolhe a base de sua relação com Deus: aquilo que pode acontecer ou não – o milagre, ou aquilo que certamente acontece – a transformação.

Seria o cristianismo, subversivo?




O cristianismo foi criado por Deus para ser apenas uma religião que traga conforto ao homem, fazendo dele apenas um participante manipulável por pregações ufanistas, vitoriosas e sem fundamentos morais e espirituais, onde não precisamos exercitar a fé, ou mesmo que a tenhamos, mas de maneira utópica e infantil conduzimos nossa vida de forma interesseira e centrada em nós mesmos;

Ou seria o cristianismo, em essência, algo que confronta as motivações humanas e das organizações, mostrando o quão podre nós somos, sem a participação em nossas vidas de maneira coletiva e única da Trindade, onde, por momentos de questionamentos e crises, sermos transformados para questionar outros homens e a própria sociedade, sobre seus valores?

Será que se agirmos assim, seremos realmente populares e bem aceitos?

Sou subversivo mesmo, e daí?


Alan Brizotti

Sempre questionei. Nasci com o instinto furioso da discordância. Nunca nutri qualquer simpatia para com as ditaduras, não interessa qual configuração. Toda ditadura, todo absolutismo me provoca. Detesto imposições. Amo a proposta, a dúvida, a crítica, o pensar. Sou um amante da liberdade!


Sempre detestei a injustiça, seja ela qual for. Não suporto sistemas e esquemas totalitários, gente metida a Deus, "riquinhos" e sua esnobe mania de ostentar empáfias e futilidades. Sempre fui pobre, filho da periferia, coberto pela poeira da vida, marcado pela falta de padrinhos, nunca tive "as costas quentes". Condenado à sobrevivência, fui fazendo das palavras minha arma de grosso calibre. Ainda são poucos os que me leem, mas ainda acredito...


Sempre amei a poesia, a filosofia, a teologia e a arte, ainda que todas estejam unidas na mesma subversão! Amo tudo que é, que não afirma sua existência no que tem, mas no que sabe ser. Amo gente que já viveu mais do que eu, que carrega nos cabelos a neve do tempo. Adoro seus conselhos e até aquela dose de desilusão que acompanha os que já se gastaram na luta.


Estudei em escola pública, andei de ônibus - muito - na guerra urbana entre sair de casa e não saber se volta. Cheguei ao ministério sem ter pai pastor, sem ser indicado pelos figurões da teologia de "tio Patinhas". Pregando mensagens perigosas desafiei alguns pequenos impérios. Ainda estou aqui. Tentando, acreditando, utopicamente sonhando...


Quero a companhia dos poetas e dos profetas. De gente que se contorce com as mesmas dores que atingem os oprimidos. Quero acreditar que um dia, da massa que não pensa, surgirão pequenos gritos. Quero escrever, ainda que no rodapé das páginas da história, frases que acordem o exército dos subversivos.


Que não me venham apregoar a morte das tentativas! Sou subversivo, morro acreditando!

O regresso dos decepcionados com o liberalismo e com a teologia da prosperidade?






Valmir Nascimento




Há poucos dias tivemos um rápido bate-papo com um amigo pastor missionário nos Estados Unidos. Entre os vários assuntos debatidos eles nos disse algo interessante. Segundo ele, nos Estados Unidos tem-se percebido o regresso de muitos cristãos de igrejas liberais (ou que pregam a teologia da prosperidade) de volta às igrejas conservadoras. O motivo seria o cansaço de tais pessoas para com as promessas nunca cumpridas da (des)teologia da (im)prosperidade e a pregação contínua de uma mensagem materialista. Na sua visão, tais pessoas haviam caído em si e estavam voltando para o local de onde haviam saído, frustrados no que diz respeito ao propósito inicial. Enfim, a geração de decepcionados [1] estaria dando meia-volta.

Não sei se isso realmente tem ocorrido em larga escala nos Estados Unidos ou se se trata somente de alguns poucos casos isolados. Ocorre que esse assunto me veio à mente novamente ao ouvir o Reverendo Augustus Nicodemus na sua preleção na 9ª Edição da Conferência Fiel para Pastores e Líderes em Portugal.

Conforme Nicodemus, muitos evangélicos estariam retornando para a Igreja Católica exatamente por não encontrarem em algumas evangélicas uma certa firmeza em assuntos como eutanásia, aborto e homossexualismo. Eis as suas palavras: “(…) hoje em dia, a quantidade de evangélicos que estão voltando para a Igreja Católica é muito grande; e a razão pela qual a Igreja Católica representa uma apelo aos protestantes que estão insatisfeitos com o relativismo que tem predominado dentro do mundo protestante, é exatamente essa aparente firmeza da Igreja Católica nas questões sócio/ético/político, com posições firmes em assuntos como aborto, eutanásia, homossexualismo, ordenação de mulheres etc“. Ele diz ainda que a culpa em grande parte era das igrejas evangélicas que haviam adotado o discurso relativista pós-moderno.

Afirmo, novamente, não saber se tais relatos são tendências ou casos isolados. Aparentemente, trata-se da segunda opção.

De toda e qualquer forma, espero sinceramente que o ponto de vista do missionário nos Estados Unidos seja uma tendência, e que os crentes estejam a perceber o embuste contido no evangelho dos lucros, voltando assim para o evangelho bíblico; a evidenciar que tal (des)teologia não passa(va) de uma onda e que agora descamba para o seu falecimento. Reconheço: isso parece um sonho. Uma grande utopia.

Por outro lado, em relação ao apontamento do ilustre Augustus Nicodemus, espero que a busca pela firmeza doutrinária e pelos valores morais seja também uma verdade, entretanto, que o destino seja outro, e não aquele mencionado por ele. Antes, gostaria que encontrassem igrejas evangélicas comprometidas com a Palavra que não se curvam ante as demandas do nosso tempo.

Utopia novamente?

[1] Expressão usada pelo pastor Paulo Romeiro em relação ao crentes frustrados com a teologia da prosperidade

POEMA - Quem é o meu próximo?



Olha o homem no chão,
Roubado, meio morto
Quem terá compaixão,
Será amparo e porto?


Lá vem o sacerdote
Pelo mesmo caminho,
É certo que devote
Cuidados e carinho.


Mas ele passa ao largo
Prossegue para igreja
E lá cumpre seu cargo
E diz: “Louvado seja!”


Olha o homem no chão,
Roubado, meio morto
Quem terá compaixão,
Será amparo e porto?


Decerto o levita
Que desce e o vê também
Mas prossegue e o evita
Nem o fita. “Amém!”


Mas o samaritano
Que vinha de viagem
Tido por desumano
Levou-o à estalagem


Não pensa em perda e dano
E dá do seu dinheiro
E resume seu plano:
“O custo pago inteiro”


E ensina: “O meu próximo
Quem é? É todo aquele
De quem me aproximo.”
Pois o amor lhe impele

Diálogo interreligioso. O que eu tenho com isso?


Em se tratando de teologia, eu me sinto como o Belchior, célebre compositor cearense em um de seus clássicos, “Apenas um Rapaz Latino-Americano”:
Por favor, não saque a arma no saloon:
Eu sou apenas o cantor!

Ocorre que eu vivo num mundo interconectado, integrado, multiplural. E, acima de tudo, como ser humano, sou livre para expressar meus pensamentos e sentimentos relacionados à vida, a Deus e ao próximo. E a partir disso, concluo: a hegemonia política do cristianismo é passado.

A força de sua mensagem, pra mim, permanece intocável. Amor sem medida, misericórdia, compaixão, generosidade, fome e sede de justiça. Em se tratando de instituição religiosa, no entanto, há muito os representantes oficiais da fé cristã têm perdido credibilidade e relevância. E nós muitas vezes confundimos Cristo com cristianismo, o que se trata de um pecado quase imperdoável.

Thomas Merton (1915-1968), sobre quem escrevi em meu livro "Somos Um", foi um monge católico que bebeu na fonte da mística cristã em São João da Cruz, e que no fim da vida promoveu o diálogo interreligioso com monges tibetanos, não para renegar sua fé, mas entendendo que sua herança cristã de dois milênios e que ele não tinha a pretensão de conhecer por completo no tempo de uma única existência, poderia beneficiar-se do diálogo com outra herança igualmente rica, uma vez que Deus não é cristão, kardecista, muçulmano, adepto das religiões afro, hindu, e a grandeza de seu mistério é simplesmente insondável.

Eu tenho a nítida sensação e a firme convicção de que o futuro da fé e a força da mensagem cristã passam por uma atitude de abertura ao diferente, uma postura de abnegação e de serviço ao outro, seja este quem for.

Ainda sonho com um mundo melhor. E um mundo melhor significa diálogo.

Mas se depois de cantar
Você ainda quiser me atirar
Mate-me logo
À tarde, às três
Que à noite eu
Tenho um compromisso
E não posso faltar...

A Parábola do Filho Pródigo pela lente da MPB







A parábola do Filho Pródigo talvez seja uma das mais conhecidas histórias que Jesus contou. Hoje a veremos de uma forma um pouco diferente...


A vida pode parecer com uma estação de trem... muitos chegam, muitos vão... os que chegam trazem consigo as cores, alegres ou tristes, dos lugares por onde passaram. Os que vão, partem na esperança de conquistar algo, até mesmo a tão procurada felicidade...
Assim é a vida... até o dia em que, quem parte, leva um pedaço de nós...


Mande notícias
Do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço
Venha me apertar
Tô chegando...

SALVOS DA FALSA ESPERANÇA



A situação já não é nada. É pura perda de tempo. Não há por que lutar. Não há por que aguardar o melhor de onde só procede o que é pior.

O bom combate já não há para quem luta as causas dos homens que só pensam em si e no poder que possam guardar em suas próprias mãos. Quem os seguir seguirá o nada, e quem lhes der ouvidos sentirá saudades da sabedoria até de um macaco.

Acabou!

O que dizer se a Boa Nova se tornou em ameaça? Que fazer se o amor virou apenas um leviano “eu te amo em nome de Jesus”? Que fazer se a libertação foi mudada em escravidão? Que fazer se o Espírito da Unidade e da Diversidade é agora invocado como espírito de Babel e de confusão?

Que fazer se até uma Arca da Aliança Artificial hoje passeia em corredores de gente aflita, conduzida por 318 homens que não cuidam de mais nada do que no fabrico de novos ídolos?

Que fazer se o Bom Nome que sobre nós foi invocado é o “nome” que hoje é apenas usado para autenticar feitiçarias e bruxarias?

Que fazer se o Evangelho da Vida virou apenas uma narrativa de doces e sedutoras historinhas de amor, enquanto o que prevaleceu foi a Lei das Tábuas de Pedra?

Que fazer quando “os do evangelho” são apenas uns fariseus sem sensibilidade? Sim, que fazer quando o Evangelho já não é o modo de ser no Caminho, posto que o Evangelho foi preso dentro de quatro livros mágicos?

Que fazer quando o nome Jesus se tornou algo como o nome de qualquer outro fundador de religião?

Que fazer quando a “serpente erguida no deserto” para a salvação de todo aquele que cresse se tornou em ídolo e superstição?

Que fazer quando o sal virou monturo, e a luz de dentro foi trocada por refletores que só iluminam palcos?

Que fazer quando o amor solidário deu lugar aos programas sociais que disfarçam apenas programas de poder político?

Sim, que fazer quando o que seria e é vida para o mundo se torna apenas em doença e arrogância?

“Que pensais? Que foi a mim que me ofereceste culto no deserto durante quarenta anos? Não! Não foi a mim, mas sim aos demônios” — diz o Senhor.

Se alguém tiver dúvidas, então, fique e veja. Quem já creu, então, ache seu lugar de refúgio.

Ai daqueles que dizem ao mundo que Jesus se parece com o diabo!

Ai daqueles que chamam de “Deus” o demônio da prosperidade e dizem “Jesus” enquanto descrevem o diabo!

Os tronos erguidos pelos impostores de “Deus” será destruído, e grande será a ruína; pois o Senhor Deus é fogo e espada, e Seu zelo é pelo Seu nome; e Ele próprio cuidará de Sua Palavra, para que não seja frustrada pela ganância dos homens.

Há um dilúvio de Deus a ser derramado. Ele mesmo chama os seus para a Arca de Sua Graça. Sim, Ele está falando, e se revela em sonho, em visão e em fortes dores no peito de milhões; e felizes serão os que lhe ouvirem a Voz.

Todos os que são de Jesus ficarão profundamente perturbados, e, assim, ninguém haverá que lhes controle o zelo da Graça que os salvou e salva todas as manhãs.

Levantem-se todos os nauseados e digam: “Fomos salvos no Rio da Vida; afastem de nós as torrentes do vômito!”

Há quem diga: “Estamos morrendo neste deserto!” A esses Deus diz: “Não é neste deserto que morrereis de sede, pois, eu mesmo, com meu braço, abrirei fontes de vida, as quais começarão a rebentar em todos os lugares áridos. Nesse dia sabereis distinguir as fontes da vida dos poços das águas artificiais”.

Quem crer verá! Mas até aquele que não crê já começa a tremer!

Não quero ser Apóstolo!!



Os pastores possuem um fino senso de humor. Muitas vezes, reúnem-se e contam casos folclóricos, descrevem tipos pitorescos e narram suas próprias gafes. Riem de si mesmos e procuram extravasar na gargalhada as tensões que pesam sobre os seus ombros. Ultimamente, fazem-se piadas dos títulos que os líderes estão conferindo a si próprios. É que está havendo uma certa, digamos, volúpia em pastores se promoverem a bispos e apóstolos. Numa reunião, diz a anedota, um perguntou ao outro: “Você já é apóstolo?” O outro teria respondido: “Não, e nem quero. Meu desejo agora é ser semi-deus”. Apóstolo agora está virando arroz de festa e meu ministério é tão especial que somente este título cabe a mim”. Um outro chiste que corre entre os pastores é que se no livro do Apocalipse o anjo da igreja é um pastor, logo, aquele que desenvolve um ministério apostólico seria um “arcanjo”.


Já decidi! Não quero ser apóstolo! O pouco que conheço sobre mim mesmo faz-me admitir, sem falsa humildade, que não eu teria condições espirituais de ser um deles. Além disso, não quero que minha ambição por sucesso ou prestígio, que é pecado, se transforme em choça.


Admito que os apóstolos constam entre os cinco ministérios locais descritos pelo apóstolo Paulo em Efésios 4.11. Não há como negar que os apóstolos foram estabelecidos por Deus em primeiro lugar, antes dos profetas, mestres, operadores de milagres, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas. Mas, resigno-me contente à minha simples posição de pastor. Já que nem todos são apóstolos, nem todos profetas, nem todos mestres ou operadores de milagres, como consta na epístola aos Coríntios 12.29, parece não haver demérito em ser um mero obreiro.


Meus parcos conhecimentos do grego não me permitem grandes aventuras léxicas. Mas qualquer dicionário teológico serve para ajudar a entender o sentido neotestamentário do verbete “apóstolo” ou “apostolado”. Usemos a Enciclopédia Histórico-Teológico da Igreja Cristã, das Edições Vida Nova: “O uso bíblico do termo “apóstolo” é quase inteiramente limitado ao NT, onde ocorre setenta e nove vezes; dez vezes nos evangelhos, vinte e oito em Atos, trinta e oito nas epístolas e três no Apocalipse. Nossa palavra em Português, é uma transliteração da palavra grega apostolos, que é derivada de apostellein, enviar. Embora várias palavras com o significado de enviar sejam usadas no NT, expressando idéias como despachar, soltar, ou mandar embora, apostellein enfatiza os elementos da comissão – a autoridade de quem envia e a responsabilidade diante deste. Portanto, a rigor, um apóstolo é alguém enviado numa missão específica, na qual age com plena autoridade em favor de quem o enviou, e que presta contas a este”.



Jesus foi chamado de apóstolo em Hebreus 3.1. Ele falava os oráculos de Deus. Os doze discípulos mais próximos de Jesus, também receberam esse título. O número de apóstolos parecia fixo, porque fazia um paralelismo com as doze tribos de Israel. Jesus se referia a apenas doze tronos na era vindoura (Mateus 19.28; cf Ap 21.14). Depois da queda de Judas, e para que se cumprisse uma profecia, ao que parece, a igreja sentiu-se obrigada, no primeiro capítulo de Atos, a preencher esse número. Mas na história da igreja, não se tem conhecimento de esforços para selecionar novos apóstolos para suceder àqueles que morreram (Atos12.2). As exigências para que alguém se qualificasse ao apostolado, com o passar do tempo, não podiam mais se cumprir: “É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição” (Atos 2.21-22).


Portanto, alguns dos melhores exegetas do Novo Testamento concordam que as listas ministeriais de I Coríntios 12 e Efésios 4 referem-se exclusivamente aos primeiros e não a novos apóstolo.


Há, entretanto, a peculiaridade do apostolado de Paulo. Uma exceção que confirma a regra. Na defesa de seu apostolado em I Coríntios 15.9, ele afirmou que foi testemunha da ressurreição (vira o Senhor na estrada de Damasco), mas reconhecia que era um abortivo (nascido fora de tempo). “Porque sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (15.10). O testemunho de mais de dois mil anos de história é que os apóstolos foram somente aqueles doze homens que andaram com Jesus e foram comissionados por ele para serem as colunas da igreja, comunidade espiritual de Deus.



O que preocupa nos apóstolos pós-modernos é ainda mais grave. Tem a ver com a nossa natureza que cobiça o poder, que se encanta com títulos e que fez do sucesso uma filosofia ministerial. Há uma corrida frenética acontecendo nas igrejas de quem é o maior, quem está na vanguarda da revelação do Espírito Santo e quem ostenta a unção mais eficaz. Tanto que os que se afoitam ao título de apóstolo são os líderes de ministérios de grande visibilidade e que conseguem mobilizar enormes multidões. Possuem um perfil carismático, sabem lidar com massas e, infelizmente, são ricos.



Não quero ser um apóstolo porque não desejo a vanguarda da revelação. Desejo ser fiel ao leito principal do cristianismo histórico. Não quero uma nova revelação que tenha sido desapercebida de Paulo, Pedro, Tiago ou Judas. Não quero ser apóstolo porque não quero me distanciar dos pastores simples, dos missionários sem glamour, das mulheres que oram nos círculos de oração e dos santos homens que me precederam e que não conheceram as tentações dos mega eventos, do culto espetáculo e da vã-glória da fama. Não quero ser apóstolo, porque não acho que precisemos de títulos para fazer a obra de Deus, especialmente quando eles nos conferem estatus. Aliás, estou disposto, inclusive a abrir mão de ser chamado, pastor, se isso representar uma graduação e não uma vocação ao serviço.



Não desdenho as pessoas, sinto apenas um enorme pesar em perceber que a ambiência evangélica conspira para que homens de Deus sintam-se tão atraídos a ostentação de títulos, cargos e posições. Embriagados com a exuberância de suas próprias palavras, crentes que são especiais, aceitam os aplausos que vêm dos homens e se esquecem que não foi esse o espírito que norteou o ministério de Jesus de Nazaré.



Ele nos ensinou a não cobiçar títulos e a não aceitar as lisonjas humanas. Quando um jovem rico o saudou com um “Bom Mestre”, rejeitou a interpelação: “Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus” (Mc 10.17-18). A mãe de Tiago e João pediu um lugar especial para os seus filhos. Jesus aproveitou o mal estar causado, para ensinar: “Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20.25-28).



Os pastores estão se esquecendo do principal. Não fomos chamados para termos ministérios bem sucedidos, mas para continuarmos o ministério de Jesus, amigo dos pecadores, compassivo com os pobres e identificado com as dores das viúvas e dos órfãos. Ser pastor não é acumular conquistas acadêmicas, não é conhecer políticos poderosos, não é ser um gerente de grandes empresas religiosas, não é pertencer aos altos graus das hierarquias religiosas. Pastorear é conhecer e vivenciar a intimidade de Deus com integridade. Pastorear é caminhar ao lado da família que acaba de enterrar um filho prematuramente e que precisa experimentar o consolo do Espírito Santo. Pastorear é ser fiel à todo o conselho de Deus; é ensinar ao povo a meditar na Palavra de Deus. Ser pastor é amar os perdidos com o mesmo amor com que Deus os ama.


Pastores, não queiram ser apóstolos, mas busquem o secreto da oração. Não ambicionem ter mega igrejas, busquem ser achados despenseiros fieis dos mistérios de Deus. Não se encantem com o brilho deste mundo, busquem ser apenas serviçais. Não alicercem seus ministérios sobre o ineditismo, busquem manejar bem a palavra da verdade; aquela mesma que Timóteo ouviu de Paulo e que deveria transmitir a homens fieis e idôneos que por sua vez instruiriam a outros. Pastores, não permitam que os seus cultos se transformem em shows. Não alimentem a natureza terrena e pecaminosa das pessoas, preguem a mensagem do Calvário.


Santo Agostinho afirmou: “O orgulho transformou anjos em demônios”. Se quisermos nos parecer com Jesus, sigamos o conselho de Paulo aos filipenses: “Tende o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (2.5-8).

Os enfermos são amados




Um texto bastante intrigante na Bíblia é o de Tiago 5:13-16.
Diz o seguinte, conforme a NVI

“Entre vocês há alguém que está sofrendo? Que ele ore. Há alguém que se sente feliz? Que ele cante louvores.

Entre vocês há alguém que está doente? Que ele mande chamar os presbíteros da igreja, para que estes orem sobre ele e o unjam com óleo, em nome do Senhor.

A oração feita com fé curará o doente; o Senhor o levantará. E se houver cometido pecados, ele será perdoado. Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz”.

A este texto normalmente se atribui a maneira como o crente é curado, porém como muitas vezes não se alcança o resultado, adota-se como uma possibilidade. Isto porque a palavra fé concede ao intérprete a possibilidade da oração não ter alcançado seu objetivo por falta da mesma. Como fé não é algo capaz de ser medido, fica o critério ao “Deus dará”, salvando a pele do que ora.

Como não acredito que os textos bíblicos devam ser lidos como receitas de sucesso, penso que devemos adequar o mesmo ao tempo em que foi escrito.

A medicina como conhecemos é recente, fruto da modernidade.

Antes estava estritamente ligada à religião, cheia de misticismos e muito interpretada pelo viés do divino. O desconhecido que ameaçava a vida só poderia ter sua origem numa causa divina do bem ou do mal. Por isso cada grupo religioso diante de um quadro de enfermidade chamava seus curandeiros para realizarem seus trabalhos. Prescrevia-se algum medicamento como chás, emplastos, banhos ou técnicas conhecidas e junto realizavam-se rituais religiosos, como orações, unções, sacrifícios etc...

O cristianismo tinha diante de si o desafio de desvincular-se da Lei, ou do judaísmo, cujo responsável pelas curas eram os sacerdotes. Jesus por diversas vezes foi indagado sobre a possibilidade de realizar curas sem ter sido investido da autoridade sacerdotal.

Um enfermo deveria se apresentar ao sacerdote para receber as instruções de como proceder com aquela enfermidade.

Assim, Tiago o líder da recente igreja, determina que os crentes não se vinculem mais ao sacerdócio judaico. Existe uma nova comunidade, com outros critérios. Uma comunidade que crê, mas age.


Antes somente o sacerdote podia ungir. Símbolo de autoridade e de saúde. Mas agora, na igreja também existem pessoas, que mesmo desprovidas de qualquer linhagem sacerdotal podem falar com Deus. Agora a comunidade é terapêutica, não se encontra no poder sacerdotal, mas na relação com Deus – pode-se livremente orar.

O óleo como ungüento servia para aliviar feridas, mas como unção era para declarar que uma pessoa estava investida de algo especial da parte de Deus.

Portanto, se a enfermidade não fosse purulenta, para quê o óleo?

Para que ficasse claro, que com Jesus não existem pessoas mais especiais do que outras diante de Deus. O desprezado é querido. Deus ama o enfermo. Enfermidade não é castigo.

Assim como um rei pode ser ungido para uma missão especial, qualquer pessoa, mesmo enferma ou doente terminal, também tem sobre si a benção de Deus. Ela não é lançada fora do arraial para sofrer seus dias em abandono.

Podemos ler o texto desconsiderando uma época em que não havia recursos na medicina, e tentar encaixar a figura do presbítero-curandeiro hoje. Ou podemos compreender que há a busca por um rompimento com o judaísmo e o estabelecimento de uma comunidade sem diferenças étnicas, raciais, culturais, sociais e de gênero. Todos são amados por Deus. Todos podem e devem agir em prol do outro.


Esta nova comunidade não deve medir esforços para que cada pessoa e principalmente os desprezados tenham certeza do amor.

Há alguém que está sofrendo? Que ele ore.

Entre vocês há alguém que está doente?

Cuidem dele. Amem-no. Que ele se veja perdoado, sem maldição, mas abençoado – ungido – por Deus. Porque este é o tipo de atitude poderosa e eficaz que deve ter justo
"Somente uma revolução sem forma e sem fôrma pode salvar o testemunho do Evangelho na Terra!

Sim, uma revolução solta como o vento, sumida como o sal na terra, simples como luzes que brilham porque são luzes; virulenta como o fermento que se imiscui na massa da humanidade, generosa como a grande árvore onde as aves dos céus encontram pouso; que pesque homens com a alegria e a calma com a qual os pescadores tiram os peixes do mar; que seja paciente como aqueles que sabem que não é seu papel separar o joio do trigo; e que seja também despojada de justiça própria, como os mendigos, cegos, coxos, mancos, maltrapilhos, tortos e fétidos da Parábola das Bodas, os quais apenas aceitaram a Graça do Convite, e, sem pudores, entraram na Festa de Deus, vestindo apenas ‘o traje’ que lhes foi dado para estarem na presença do Santo."


A Semente é mais que um lugar ou um clube de iluminados. Trata-se de um movimento de subversão do Reino de Deus na Terra. Por esta razão, "A Semente" é feito de gente chamada a assumir seu papel de sal que se dissolve e some para poder salgar; de fermento que se imiscui na massa e desaparece a fim de subverter; de pequena semente que se torna grande e generosa árvore que a todos acolhe; de Casa do Pai para os filhos Pródigos e também para os Irmãos Mais Velhos que se alegrarem com a Graça do perdão; e um ambiente espiritual no qual até o "administrador infiel" possa se consertar, e, assim, tentar fazer o melhor do que restou.

Na Semente todos são irmãos, e ninguém é juiz do outro. Assim, ajudam-se, mas não se esmagam uns aos outros, posto que no Caminho todos caem e levantam, todos se enfraquecem, mas não desanimam, todos são humanos, e, com humanidade são tratados, conforme o Dogma do Amor.

Desse modo, "os da Semente" andam no mundo, no chão da terra, em meio à sociedade humana; e isto sem fazer propaganda, mais vivendo
um evangelho puro e simples.
Tudo em Cristo me deixa perplexo. Seu espírito me intimida, e sua vontade me confunde. Entre ele e qualquer outra pessoa do mundo, não existe termo possível de comparação. Ele é verdadeiramente um ser por si mesmo [...] Procuro em vão na história encontrar o semelhante a Jesus Cristo, ou qualquer coisa que se possa aproximar do evangelho. Nem a história, nem a humanidade, nem os séculos, nem a natureza me oferecem qualquer coisa com a qual possa compará-lo ou explicá-lo. Aqui tudo é extraordinário.
Napoleão

Josué Cláudio Araújo. Tecnologia do Blogger.
 

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