Paulo Brabo - A Bacia das Almas
Uma
das primeiras e mais fundamentadas críticas articuladas contra o
capitalismo foi que, em nome da eficiência, ele separava os
trabalhadores do produto do seu trabalho. Pela primeira vez na história
acontecia de trabalhadores livres encontrarem-se alienados em
larga escala do esforço produtivo das suas mãos. Graças à curiosa mágica
do capitalismo, você podia trabalhar a vida inteira numa linha de
montagem sem chegar a ter um Fiat na garagem; podia trabalhar numa
agência de viagens sem chegar a deixar o país.
Estamos
ainda aprendendo a sobreviver às seqüelas dessa alienação. Muitos
críticos sensatos sugerem que a separação entre o trabalhador e fruto do
seu trabalho criou uma forma incapacitadora de castração mental: sob o
capitalismo, o operário abre deliberadamente mão do privilégio
fundamental de autocondução da vida; vende a
primogenitura da liberdade pela segurança da benção do sistema. O que o
operário vende é o seu trabalho (e portanto sua vida) à máquina
capitalista, renunciando dessa forma a privilégios de autodeterminação
de que ainda desfrutam, em alguma escala, trabalhadores rurais,
artesãos, mendigos, militares, artistas, pescadores e professores.
O
problema essencial dessa concessão é que ela abre espaço para inúmeras
outras. O capitalismo acaba separando não apenas o trabalhador do fruto
do seu trabalho: separa também o consumo das necessidades. O consumidor
capitalista não consome porque precisa ou mesmo porque quer: sua
vida de consumo subsiste inteiramente à parte das suas verdadeiras
necessidades, quaisquer que sejam, com as quais ele perdeu todo o
contato.
O
primeiro passo abre precedente para o segundo: sob o capitalismo o
trabalhador não abre mão apenas de (1) o trabalho das suas próprias
mãos, mas também de (2) determinar quais sejam as suas próprias
necessidades. O sistema fechado que o protege e sustenta deixará muito
claro aquilo que ele deve consumir e desejar. Veja esta torradeira, este
laptop, este iogurte. Agora com nova embalagem. Você sabe que quer um igual – o sistema alimentou-o direitinho. Resistir é inútil.
* * *
A
questão mais recente e por certo mais grave é no entanto outra. Até
recentemente restava ao trabalhador capitalista vestígios de
autodeterminação na maneira como ele decidia conduzir a sua vida social e utilizar o seu tempo livre. Essas
brechas possibilitavam alguma liberdade e espaço para desintoxicação.
Mesmo que tivesse de se dobrar à máquina 8 horas por dia, cinco dias por
semana, sobrava ao operário o resto da vida, – preciosíssimo nicho dentro do qual ele podia recuperar o espectro total do potencial humano através da prática criativa.
A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO É O MOMENTO EM QUE O CONSUMO CONQUISTOU A OCUPAÇÃO TOTAL DA VIDA SOCIAL.
Isso
foi antes que a sociedade capitalista fosse inteiramente engolida pela
onipresença do espetáculo – e entenda-se como espetáculo tudo que, não
sendo trabalho, também não é vida social ou prática criativa: cinema,
TV, esportes e shows pela TV, teatro, conteúdo da internet, jogos de
computador, noticiários, shows de música, documentários, apresentações
de powerpoint, desenhos animados, jornais, Reality TV, revistas, CDs de
música, DVDs, programas de calouros, de perguntas e respostas, trailers,
pornografia, videocassetadas, rádio, filmes da internet, arquivos mp3,
cartuns, histórias em quadrinhos, animações da internet – e, muito mais
freqüentemente do que uma vez já foi, também formaturas, bailes, festas,
cultos, missas e cerimônias de casamento.
Vivemos
o que a Escola de Frankfurt (Horkheimer e Adorno em 1972; Marcuse em
1964), chama de sociedade “totalmente administrada” ou “unidimensional”.
Ou, segundo Guy Debord: “A sociedade do espetáculo é o momento em que o
consumo conquistou a ocupação total da vida social”. E este, senhoras e
senhores, é um dos conceitos mais fundamentais do nosso tempo.
“Essa
transição estrutural para uma sociedade do espetáculo envolve a
transformação em mercadoria de setores previamente não-colonizados da
vida social, e a extensão do controle burocrático aos domínios do lazer,
do desejo e da vida cotidiana”
(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spectacle).
A diferença entre ontem e hoje está em que nossos hobbies e
nossa vida social éramos nós mesmos que definíamos; o espetáculo sem
trégua da TV/internet nós consumimos de forma inerte e – eis a pegada – o tempo todo. Da
Copa do Mundo ao Big Brother ao novo Super-Homem aos canais da TV
fechada ao cartum da internet ao culto dominical à formatura de judô da
Mariana – só nos resta tempo livre para o espetáculo.
E
como é a aplicação do tempo livre que determina o que somos (ou
sentimos que somos), não nos resta autodeterminação alguma. Não
restamos. Somos recortes de papelão numa sociedade unidimensional.
* * *
É
a absolutização da política do pão e circo: enquanto está consumindo o
espetáculo você não representa ameaça alguma. E não corre o risco de
descobrir quem é.
“Para
Debord, o espetáculo é uma ferramenta de pacificação e de
despolitização; é uma ‘guerra do ópio permanente’, que estupidifica os
agentes sociais e distrai-os da tarefa mais urgente da vida real. O
conceito de Debord de espetáculo está intimamente relacionado aos
conceitos de separação e passividade, pois em espetáculos consumidos
passivamente o espectador é alienado de produzir ativamente a sua
própria vida”
(Douglas Kellner: Media Culture and the Triumph of the Spectacle).
Na novela 1984 George
Orwell imagina uma sociedade inteiramente subjugada por um governo
burocrático e totalitário: todas as casas e aposentos são monitorados
por câmeras ocultas de vídeo, e o mundo tem suas iniciativas esmagadas
pela vigilância eterna do Grande Irmão (Big Brother).
Orwell,
embora se julgasse pessimista, nos superestimou. A realidade é muitas
vezes menos inteligente e certamente mais incrível. Nossa sociedade é
absolutamente controlada e inofensiva, não porque o Big Brother nos
vigia o tempo todo, mas porque assistimos o tempo todo ao Big Brother.








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